Q&A: Novo projeto destaca os riscos à saúde enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis

Tue Dec 11, 2018

Por Sonia Dias e Ana Carolina Ogando

Os(as) catadores(as) mantêm as cidades limpas, mas enfrentam condições perigosas no trabalho. Sua saúde e bem-estar estão em risco diariamente. À medida que coletam e classificam os resíduos, eles estão expostos a materiais e condições de trabalho perigosos, entre outras questões. 

No início deste ano, a WIEGO lançou o Projeto Cuidar, uma iniciativa conjunta com a Redesol, uma rede de segundo nível de cooperativas de catadores em Belo Horizonte, Brasil. O Projeto Cuidar teve como objetivo coletar informações sobre os riscos que os(as) catadores(as) enfrentam. Também procurou entender as estratégias de enfrentamento dos trabalhadores e o acesso aos serviços públicos de saúde.

O mapeamento dos riscos à saúde considerou como os ambientes de trabalho, a infraestrutura e os processos organizacionais afetam a saúde física e emocional dos trabalhadores.

O projeto ocorreu em cinco cooperativas pertencentes à Redesol: Comarp (Belo Horizonte, Minas Gerais), Associrecicle (Belo Horizonte, Minas Gerais), Ascar (Raposos, Minas Gerais), Coopersoli (Belo Horizonte, Minas Gerais) e Unicicla (Nova União, Minas Gerais). 

O mapeamento dos riscos à saúde considerou como os ambientes de trabalho, a infraestrutura e os processos organizacionais afetam a saúde física e emocional dos trabalhadores. O termo “saúde dos trabalhadores” sinaliza a adoção de uma abordagem abrangente da saúde, que incorpora múltiplas dimensões do local de trabalho e dos processos de trabalho. 

Nesta sessão de perguntas e respostas, conversamos com Sonia Dias (SD), especialista do setor de resíduos da WIEGO, e Ana Carolina Ogando (AO), pesquisadora associada da WIEGO, sobre como o projeto começou, por que é importante entender melhor os riscos à saúde dos(as) catadores(as) e quais medidas podem ser tomadas para melhorar suas condições.

Leia mais sobre a saúde dos trabalhadores informais.

1) Esta parece ser uma iniciativa importante para os catadores, em particular, dada a natureza do seu trabalho. O que motivou esse projeto?

SD: O Projeto Cuidar surgiu como uma demanda das organizações de base (OBs) e líderes de catadores que queriam entender os riscos e outras questões ligadas à saúde dentro das cooperativas. 

Mais especificamente, as discussões sobre a saúde dos(as) catadores(as) surgiram em uma reunião anual realizada pela Redesol em 2016. Um dos grupos de trabalho do evento fez questão de enfatizar o tema na agenda de 2017 das redes com parceiros e partes interessadas. Curiosamente, a ligação entre preocupações com a saúde e condições de trabalho já havia aparecido em outras atividades e pesquisa-ação da WIEGO com cooperativas de catadores em Belo Horizonte, como o Estudo de Monitoramento da Economia Informal e o Projeto de Gênero e Lixo

Como resultado desses interesses, o Programa de Proteção Sociale o Programa de Políticas Urbanas da WIEGO apoiaram nossos esforços para elaborar um projeto participativo que corroborasse o interesse da Redesol em coletar mais informações sobre saúde.

... valorizamos a contribuição dos catadores em todas as etapas do processo de pesquisa...

AO: Acredito que o interesse no projeto surgiu em um momento em que a WIEGO e nossas OBs locais participaram respeitosamente de um processo colaborativo que produziria dados úteis para as cooperativas e aumentaria a visibilidade em múltiplas dimensões das condições de trabalho, produtividade e resiliência dos catadores. Na verdade, Ivaneide Souza, presidente da Redesol, afirmou que o projeto era relevante porque oferecia aos catadores a oportunidade de refletir sobre “como eles cuidam de seus corpos enquanto estão no trabalho e reconsiderarem o que é necessário para melhorar sua saúde” (V Encare, 25 de agosto de 2018).

Ivaneide Souza, presidente da Redesol. Foto: L. Mintz

2) Você menciona que o processo de esboço do projeto foi participativo. Poderia falar mais sobre isso e por que isso era importante? 

AO: Grande parte do trabalho que fazemos para gerar conhecimento para e com os(as) catadores(as) é ancorado nos princípios da educação popular e processos participativos. Nesse sentido, valorizamos a contribuição dos(as) catadores(as) em todas as etapas do processo de pesquisa, incluindo feedback sobre a definição de questões e métodos de pesquisa essenciais, o ritmo do processo de pesquisa em si e até mesmo a validação dos dados produzidos pelos(as) pesquisadores(as). 

Leia mais sobre o evento de validação e feedback do Cuidar.

SD: Priorizar as vozes dos(as) catadores(as) no processo e reconhecê-los como co-produtores de conhecimento ajudou a fortalecer ainda mais nosso relacionamento com a Redesol. Além disso, nos permitiu trabalhar para a produção de conhecimento que seria útil para Redesol em seus processos de reivindicação e para ampliar suas relações com outros parceiros locais importantes.

“Precisamos de dados e o Projeto Cuidar é uma ferramenta para nós”.

Eu acho que isso reflete a relação de confiança que desenvolvemos ao longo dos anos com a Redesol. Marli Beraldo, vice-presidente da Redesol, reforçou a importância do projeto. No evento devolutivo e de validação do projeto , destacou: “Precisamos de dados e o Projeto Cuidar é uma ferramenta para nós. O comitê administrativo da Redesol foi parte das discussões do projeto. Trabalhamos em colaboração com a WIEGO e agora podemos compartilhar resultados concretos com a rede” (V Encare, 25 de agosto de 2018).

AO: Eu também acho que uma importante dimensão e força dessa abordagem participativa é que ela foi capaz de capturar as estratégias individuais e coletivas que os(as) catadores(as)empregam para mitigar riscos à saúde. Desde o início do processo, sabíamos que não queríamos focar estritamente nas vulnerabilidades que os(as) catadores(as) enfrentam em suas cooperativas. Isso significava reconhecer que eles(as) têm conhecimentos importantes não apenas sobre os desafios que estão enfrentando, mas também sobre as soluções que podem ser necessárias para abordá-los.

No geral, eu diria que os(as) catadores(as) foram bastante receptivos à discussão sobre  riscos de saúde. A preparação das diferentes ferramentas, baseadas nos métodos de educação popular, nos permitiu construir rapidamente uma conexão dentro das cooperativas, facilitando muito o trabalho de campo. Muitas vezes ouvimos que as atividades lembraram os(as) catadores(as) de ficarem mais conscientes dos impactos de suas rotinas de trabalho pesadas em seus corpos, mas também que momentos de compartilhamento sobre o trabalho era bastante terapêutico.

A composição diversificada de nossa equipe refletiu o desejo de ter uma visão interdisciplinar para iniciar o trabalho de campo.

Catadores(as) iniciam a discussão com atividades de educação popular. Foto: A. Ogando

SD: Além do processo colaborativo com os(as) catadores(as) e líderes da Redesol, também contamos com o apoio de duas outras pesquisadoras, Juliana Gonçalves e Fabiana Goulart, que trabalham com catadores(as)  há vários anos na área de engenharia e psicologia, respectivamente. A composição diversificada de nossa equipe refletiu nosso desejo de ter uma lente interdisciplinar no trabalho de campo. É também por isso que envolvemos um comitê de conselheiros ad hoc com  pesquisadores afiliados a importantes centros nacionais de pesquisa em saúde no Brasil.

3) Quais foram algumas das principais conclusões? Algum dos riscos para a saúde lhe surpreendeu? Surpreenderam os(as) próprios(as) catadores(as)?

SD: Uma das principais descobertas para mim foi ver como os(as) catadores(as) estão lidando com os riscos, muitas vezes de maneira criativa. Algumas cooperativas têm se concentrado em melhorar sua nutrição, enquanto outras têm se concentrado em minimizar suas dores no corpo com rotinas de exercícios. 

Acho que nosso papel era tentar fazer com que os(as) catadores(as) refletissem sobre o quão poderoso seria se a cooperativa adotasse essas estratégias de maneira mais coletiva.

Algumas cooperativas têm se concentrado em melhorar sua nutrição, enquanto outras têm se concentrado em minimizar suas dores no corpo com rotinas de exercícios.

AO: Para mim uma das principais descobertas tem a ver com a forma abrangente como os(as) catadores(as) definiram diferentes aspectos da saúde dos trabalhadores. Houve uma compreensão muito clara por parte dos(as) catadores(as)  de que ter boa saúde tem a ver tanto com  o bem-estar físico quanto com o bem-estar emocional. Este último foi enfatizado em todas as atividades durante o trabalho de campo e reforça estudos que analisaram como transtornos mentais comuns, como fadiga, ansiedade e depressão, estão relacionados a vulnerabilidades socioeconômicas e de gênero

Também foi surpreendente ver como os(as) catadores(as) estão preocupados com doenças silenciosas, como diabetes e hipertensão. Em geral, enfatizaram que sua saúde está ligada a rotinas de trabalho, infraestrutura e equipamentos inadequados e relações de trabalho.

... ter uma boa saúde tem a ver tanto com o bem-estar físico quanto com o bem-estar emocional.

SD: Eu acho que também vale a pena mencionar o que nossa equipe de pesquisa identificou como principais descobertas. Juliana Gonçalves ficou surpresa com o quanto os mapas corporais da pesquisa ajudaram a mostrar as condições de trabalho precárias que existem no setor de coleta de resíduos. Para Fabiana Goulart, um dos aspectos mais interessantes do trabalho de campo foi dar voz aos(às) líderes: “Foi um momento elucidativo para ver como os(as) líderes constroem seu conhecimento e se tornam agentes ”. Para ela, o processo para se tornar um líder é diretamente influenciado pelo relacionamento com os membros da cooperativa e pela própria história e experiências pessoais do(a) líder.

Os mapas corporais avaliaram as principais dores no corpo sentidas pelos catadores e catadoras (dados da pesquisa).

Durante o evento de feedback, um catador valida as descobertas durante um esquete com atores vestidos como mapas vivos de corpos. Foto: L. Mintz

Assista a este vídeo sobre catadores em reciclagem urbana.

4) Parte do projeto consistia em testar diferentes métodos de feedback de comunicação para aumentar a conscientização sobre questões de saúde relacionadas ao trabalho. Que tipo de métodos vocês experimentaram? Alguns mecanismos funcionaram melhor que outros?

SD: Sempre nos preocupamos muito com a forma que as informações sobre o projeto estão atingindo as bases das OBs e, o mais importante, sendo usadas por elas. Queríamos estar muito conscientes de como as discussões sobre saúde poderiam chegar aos(às) catadores(as) que não necessariamente participavam das atividades de campo, mas ainda assim poderiam incentivar reflexões sobre sua própria saúde e práticas dentro das cooperativas. 

Uma das ferramentas que eu gosto de usar são vídeos curtos com catadores. Durante as visitas às cooperativas, gravava vídeos curtos antes e depois das atividades com os(as) catadores(as) e compartilhava essas reflexões com a Redesol.

Sempre nos preocupamos muito com a forma que as informações sobre o projeto estavam atingindo as bases das OBs e, o mais importante, sendo usadas por elas.

AO: Também sabíamos que era importante ter materiais visuais nos quais os(as) catadores(as) se sentissem reconhecidos(as) e respeitados(as) pelo tempo que passaram em nossas atividades. Frequentemente, elaborávamos foto-notícia  curtos entre as atividades de trabalho de campo para lembrar os(as) catadores(as) de discussões anteriores. 

Acho que eles(as) realmente apreciaram esse feedback e gostaram não apenas de ver suas fotos, mas também de ler citações do que colegas estavam dizendo sobre as suas preocupações com a saúde. Também produzimos cartões fotográficos com as sugestões dos(as) catadores(as) sobre a importância da nutrição, o uso de equipamentos de proteção e fazer com que a comunidade abrace a reciclagem inclusiva.

Antes da discussão dos grupos focais, um Foto-Notícia  foi compartilhado com os membros da cooperativa. Foto: B. Greco

5) Para onde você acha que esse projeto vai, tanto no nível básico de compreensão das necessidades de saúde, quanto na conexão dessas descobertas em um nível político? 

AO: No nível básico, eu diria que o projeto conscientizou os(as) catadores(as) sobre o que podem fazer diariamente para criar um ambiente de trabalho mais saudável e mais cooperativo. Eles(as) mencionaram repetidamente a necessidade de mudar atitudes e hábitos dentro da cooperativa, alguns dos quais envolvem a adoção de uma higiene melhor no local de trabalho e mais respeito e tolerância com seus colegas.

No nível político, o projeto também reforçou o papel fundamental que governos e partes interessadas, incluindo a sociedade civil, desempenham para se comprometerem com políticas de coleta seletiva mais inclusivas. Os riscos à saúde enfrentados pelos(as) catadores(as) podem diminuir se houver maior atenção à melhoria das condições de trabalho, infraestrutura e qualidade dos materiais recicláveis que chegam às cooperativas. Isso envolve, basicamente, um planejamento melhor com e para os(as) catadores(as) para seus galpões e estratégias consistentes de mobilização que mostrem a importância da reciclagem, não apenas para os meios de subsistência desses(as) trabalhadores(as), mas também para o meio ambiente.

SD: Trazer à tona as conexões entre trabalho decente e questões de saúde dos trabalhadores informais também é essencial para a discussão  sobre os objetivos de desenvolvimento sustentável — e como elas devem ser abordadas — particularmente questões de trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8), igualdade de gênero (ODS 5) e cidades sustentáveis (ODS 11).

Acho que um dos principais avanços do projeto são as conexões que estão sendo feitas com duas redes envolvidas com questões de  saúde do trabalhador. Uma delas é a rede Salud urbana en América Latina (SALURBAL), formada por 10 instituições de pesquisa da América Latina e dos Estados Unidos. A SALURBAL é uma rede que foca na discussão de políticas de forma a formular políticas urbanas e de saúde adequadas às especificidades regionais, bem como na avaliaçãode  impactos de políticas específicas e na promoção de  boas práticas. Estamos felizes em abrir espaço para discutir questões de saúde dos trabalhadores informais dentro dessa rede.

No nível básico, eu diria que o projeto conscientizou os(as) catadores(as) sobre o que podem fazer diariamente para criar um ambiente de trabalho mais saudável e mais cooperativo.

A outra rede é o Workplace Health Without Borders (WHWB) - Saúde do Local de Trabalho Sem Fronteiras, que é composta por um grupo de higienistas ocupacionais que se reuniram para financiar uma organização sem fins lucrativos. Esse grupo procura abordar questões de saúde e segurança ocupacional em todo o mundo. 

A WHWB criou um novo grupo de trabalho chamado “saúde dos trabalhadores em resíduos ”, e a WIEGO acaba de ser convidada a participar. Esse grupo está procurando estabelecer colaborações conjuntas focadas em projetos de pesquisa e pesquisa-ação para ajudar a aumentar a visibilidade da saúde dos trabalhadores formais e informais.

Além disso, esperamos poder fortalecer a colaboração com as duas fundações brasileiras que participaram do nosso comitê consultivo, a FUNED e a FIOCRUZ, para expandir nosso conhecimento sobre a saúde dos(as) catadores(as).

Leia mais sobre o Projeto Cuidar e a saúde dos catadores.

 

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Foto: Catadores analisam o que os colegas afirmaram sobre preocupações com a saúde no relatório fotográfico. Foto: B. Greco