Como uma Cidade Brasileira Usou o Teatro e a Música para Popularizar a Reciclagem - e os trabalhadores pobres por trás dessa atividade

Fri Apr 27, 2018

Por Carlin Carr

O Brasil tem sido um pioneiro global quando se trata da integração dos catadores de materiais recicláveis nos sistemas de gestão de resíduos sólidos. Mas essas políticas progressistas não foram desenvolvidas da noite para o dia. De fato, uma iniciativa de comunicação altamente coordenada na pequena cidade de Belo Horizonte, localizada no sudeste do país, alicerçou o despertar de um movimento nacional. Por meio de canto e dança nas ruas, uma ampla divulgação em cartazes e até palestras nas escolas, a Companhia de Saneamento de Belo Horizonte transformou sua campanha de conscientização pública em prioridade - e também em arte.

“Levamos a comunicação e a mobilização social a sério”, diz Sonia Dias, Especialista do Setor de Catadores na WIEGO. Dias trabalha em Belo Horizonte e já fez parte da Companhia de Saneamento da cidade e dessa iniciativa de comunicação, que já dura dez anos. "Na verdade, essa iniciativa foi prevista em nossa política de gestão de resíduos sólidos e criamos um Departamento de Mobilização Social."

Belo HorizonteOs catadores de Belo Horizonte educam o público sobre reciclagem por meio de atuação nas ruas. Foto: S. Dias

Uma iniciativa de comunicação que é ao mesmo tempo divertida e direcionada

O novo departamento abrigou as iniciativas de reciclagem da cidade, assim como uma equipe heterogênea de especialistas - arquitetos, engenheiros, educadores, sociólogos, psicólogos e artistas - e foi encarregado de mudar os velhos hábitos e mentalidades relativos ao lixo e sua destinação. A estratégia era tanto interna quanto externa: concentrou-se em mudar a percepção do público sobre os catadores de materiais recicláveis da cidade (conhecidos apenas como catadores), bem como a percepção dos funcionários da Companhia de Saneamento. Muitas vezes, os catadores eram vistos como criminosos ou vagabundos e não como agentes ambientais e trabalhadores dignos de seus direitos. O departamento também precisava fazer com que as pessoas separassem o lixo em casa e colocassem os materiais adequados nos pontos de reciclagem que foram instalados em toda a cidade (desde então, Belo Horizonte já implementou a coleta seletiva porta a porta).

As organizações de catadores começaram a fazer parte do processo ao longo do caminho, fornecendo insumos para a política da cidade e compreendendo o poder que um plano coordenado de comunicação e mobilização social pode ter. Os catadores foram sendo humanizados durante a iniciativa e suas vozes começaram a ser ouvidas. Muitos catadores fizeram palestras para estudantes e grupos das comunidades para falar mais sobre o seu trabalho e fazer breves encenações, após passar por um treinamento com especialistas do teatro.

Assista a este vídeo sobre o papel que os catadores desempenham ambientalmente.

Belo HorizonteUma catadora atua nas favelas de Belo Horizonte para educar o público sobre reciclagem. Foto: S. Dias

Além de envolver os catadores, a iniciativa de comunicação também utilizou aspectos da rica cultura brasileira para chamar a atenção das pessoas. O departamento realizou um festival e um desfile da reciclagem, em que organizou um coral com músicas focadas na separação do lixo. O grupo se apresentou em igrejas e em vários locais da cidade. Os membros do departamento fizeram palestras nos ônibus locais e foram para bares frequentados após o expediente de trabalho em uma iniciativa chamada "Bar a Bar", que visava engajar os habitantes da cidade enquanto eles desfrutavam de bebidas. Uma vez por mês, nos semáforos, artistas encenavam “esquetes rápidas” (ou seja, peças de curta duração) em que abordavam diferentes assuntos, visando, por exemplo, desencorajar o hábito de jogar lixo pelas janelas do carro ou incentivar as pessoas a manter a cidade limpa. Foi difícil não notar o entusiasmo em torno da reciclagem.

Foram desenvolvidos materiais e programas específicos para os vários segmentos da sociedade: escolas, associações comunitárias, instituições religiosas, agentes de saúde das comunidades e até mesmo para os garis formalmente contratados pela prefeitura, que frequentemente viam os catadores como competição ou ameaça.  O departamento realizou programas especiais para conciliar os garis e os catadores, desenvolvendo cursos de treinamento e disponibilizando programas de alfabetização para ambos os grupos.

Apesar do burburinho que estavam causando, Dias relatou que o orçamento do departamento era minúsculo, então eles precisaram ser criativos. Eles buscaram atingir os influenciadores em levas, deixando que esses alvos certeiros fossem os multiplicadores na divulgação da mensagem. Os esforços iniciais concentraram-se em uma rede principal de parceiros, se expandiram para as escolas e as outras instituições, e depois partiram para uma ação em maior escala: a cidade e o cidadão. 

Leia sobre a vida da catadora brasileira Dona Maria Bras.

Belo HorizonteUm grupo de teatro de catadores atua o centro para promover a consciência ambiental. Foto: S. Dias

A mensagem se alastra pelo o Brasil

Em pouco tempo, autoridades de todo o país estavam viajando para Belo Horizonte para ver do que se tratava toda a comoção. Finalmente, essa experiência se tornou uma das principais inspirações para a criação de um fórum nacional sobre lixo e cidadania, o que significou um importante avanço; a reciclagem e os catadores estavam sendo levados a sério, como importantes atores na gestão de resíduos sólidos. 

"Hoje, fala-se dos catadores de forma mais positiva”, diz Dias. "Eles são vistos como colaboradores do meio ambiente."

Em 2010, o Brasil adotou uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) voltada para o futuro, que serve de modelo para os países do Sul Global. Essa política reconhece as cooperativas de catadores como prestadoras de serviços e, como resultado, institui uma série de mecanismos para fornecer apoio às cooperativas e aos municípios que integram os trabalhadores informais aos sistemas de resíduos sólidos.

A política surgiu a partir de frentes diversas, mas a mensagem criativa e consistente de Belo Horizonte certamente teve um papel importante. Para mudar uma mentalidade é necessário tempo e um planejamento cuidadoso, mas, como os catadores do Brasil podem confirmar, as iniciativas foram capazes de elevar a sua imagem e dar a eles uma função de maior respeito na busca de uma solução para o lixo do país.

 

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